ANTONIO HENRIQUE AMARAL: ENTREATO

Maria Alice Milliet

Outubro de 2000


Para entender o processo de criação de Antonio Henrique Amaral, não basta conhecer sua pintura, é indispensável ver em paralelo seus desenhos: esboços, estudos preparatórios, registros gráficos feitos automaticamente, sem propósito definido e os desenhos/pinturas que são obras acabadas. Ultimamente, o desenho vem assumindo uma proeminência nunca antes alcançada, ocupa toda a atenção do artista, todo seu tempo de trabalho.

Cabe aqui recordar o que foi a contaminação da pintura pelo desenho, porque hoje, é o próprio desenho que ganha status de pintura. Houve um momento, na década de 80, em que a liberdade do desenho transbordou do papel para a tela. Sem dúvida, essa foi a fase mais desregrada de toda a produção pictórica do artista e, certamente por isso, a menos compreendida. Até então, o descontrole do gesto, ou seja, a mão correndo solta, era, para Antonio Henrique, uma atitude marginal à criação propriamente artística. Acontecia como intromissão gráfica não permeditada, ou seja, garatujas desenhadas nos intervalos das agendas, em capas de revistas, entre recados e memorandos. Quando afinal ele admitiu na pintura a mesma impulsividade, fez uma revolução.

Levantada a censura, a permissividade tomou conta dos quadros. A euforia criativa subverteu todos os códigos. Uma energia avassaladora arrastou para a tela uma profusão de cacos, restos, riscos e rabiscos, amoleceu contornos, inflou formas, tornando-as cada vez mais voluptuosas, e juntou tudo em paisagens delirantes. Havia sofreguidão e deleite na conquista de um espaço desprovido de medidas, de grandezas fixas, de relações estáveis. Porém na vida como na arte, todo ímpeto desestabilizador, com o tempo, tende a perder intensidade. No final dos anos 80, sobrevém na pintura um retour à l’ordre, um movimento que faz parte da dialética entre razão e emoção, entre contenção e impulsividade, sempre ativa na obra de Amaral.

Depois disso, em 1997, aconteceu, em São Paulo, uma importante exposição de obras sobre papel que já dava bem a idéia da importância que o desenho de Amaral vinha adquirindo como obra autônoma. Na presente mostra, até pelos grandes formatos, pela exuberância das cores, isto fica patente. O desenho, como sempre, vem mais livre que o óleo sobre tela, menos comprometido com as coisas do mundo. Certamente o papel como suporte favorece esse descompromisso, permitindo técnicas mais ligeiras tais como aquarelas e aguadas, guaches, lápis de cor e pastel. Entretanto, esse desenho que é pintura nada tem de subversivo, melhor dizendo, não atua, no caso, como agente disruptor, função que desempenhou quando invadiu a tela: existe por si, como exercício prazeiroso, lúdico. A declarada despreocupação do artista não impede, ao contrário, deixa aflorar o seu extraordinário domínio técnico, a cor exultante, a fluidez do traço em composições que por vezes chegam perto do preciosismo oriental. Sugerem a extensão de tecidos, o brilho da seda ou da laca. Agradam. Tem a superficialidade inteligente de um divertissement. Aguardem. Este é só o entreato, a festa continua...