Estado: A última Bienal de Veneza revisou a arte deste século atravéz da arte do retrato e do corpo, ou seja, do modo como o artista vê a humanidade e a si próprio. O curador Jean Clair omitiu ou deixou de lado grandes momentos da arte abstrata. Essa leitura, na contramão das tendências hegemônicas da historiografia foi radicalismo necessário para recolocar as coisas no lugar?

AHA: A arte deste século, como a de qualquer outro século, reflete sempre as transformações que se operam no homem e nas culturas em que vive o artista. Essas transformações ocorrem em dois tempos distintos: No tempo interior do homem e no tempo do mundo a sua volta que parece mais veloz e vertiginoso por causa das mudanças tecnologicas. Internets, computadores, a informação global nos fazem crer que a nossa vida vai a mil por hora. Cria-se a ilusão do conhecimento imediato e “parece” que a informação é experiência assimilada por mágica eletrônica. No entanto o acesso à informação não deve ser confundido com o conhecimento que é fruto da experiência assimilada , processada lentamente por nossos mecanismos interiores. Consciente ou não, o artista se defronta com o desafio de lidar com esses dois tempos e atravéz deles criar seu trabalho, desenvolver sua linguagem refletindo seu estar no mundo. Convergir essa dupla visão objetiva-subjetiva (a obra de Kafka). Nesse percurso não existe “mão” nem “contramão“.O desenvolvimento do ser humano e de suas linguagens artísticas não são e nunca foram lineares e aqui é que as “vanguardas” iludem. As direções são múltiplas e não existe isso de estar na frente ou atráz. Baudelaire dizia que a obra de arte é fruto de dois elementos básicos: um elemento constante, que transcende a contingência temporal, feito de antigas inquietações diante dos mistérios de nossa existência e um segundo elemento, circunstâncial, que é a Época, a Moda a Moral e a Paixão. As obras de arte buscam a integração desta nossa quase esquizofrênica condição humana. Não acredito em “hegemonias” e muito menos que se possam “recolocar as coisas no lugar” porque as “coisas” e o artista estão sempre mudando de lugar. Como diz Anthony Storr, “o único dogma aceitável é o de que todos os dogmas são suspeitos”. Princípios estéticos, dogmas religiosos ou políticos sempre desaguam em atitudes sectárias e trágicos componentes autoritários: pretensiosas afirmações de que isto é vanguarda e aquilo é passado, de que é por aqui e não por alí, todas essas “verdades” se desmancham como incertas e frágeis. Somos testemunhas neste século de como são passageiras as verdades éticas, estéticas e políticas que se proclamam lógicas e irrefutáveis. No mundo das artes os sistemas conceituais de vanguarda são sistematicamente desmontados pelo imprevisível, contraditório e complexo comportamento humano. As vanguardas pos-modernistas estão sempre decretando a morte da pintura que é o cadáver que mais vive e se mexe que conheço. Os dois tempos conflitantes se encontram, desencontram e a pintura continua.

 

Estado: Você concorda que a arte figurativa está voltando com toda força após a supremacia da arte minimalista e abstrata que permeou estas últimas décadas com exceção dos anos 80, da explosão da pintura pós expressionista?

AHA: Não acredito que a “pintura figurativa está voltando” porque nunca me ocorreu que ela tivesse ido embora e só agora estivesse voltando... Como nunca enguli “supremacias” de quaisquer tendências. O minimalismo e o abstracionismo são correntes da maior importância mas no meu entender, nunca foram “supremas” porque nenhuma tendência o é. O pintor Francis Bacon detestava a arte abstrata que acusava de decorativa, inconsequente e instrumento de mistificação, apenas para citar a opinião de um grande artista. Respeito e amo a obra de muitos artistas abstratos mas se não acredito no “progresso” da arte como posso acreditar em “supremacias” e “hegemonias”? Não são elas que geram dogmáticas teorias excludentes, inquisições, fundamentalismos, intolerâncias e racismos?, Minimalistas, abstratos e conceituais enriqueceram o acervo artístico da humanidade mas não excluem outras vertentes do trabalho artístico. O absurdo, a fantasia, o desejo e o animal se misturam no homem de maneira muito mais complicada do que suspeitam intelectuais portadores do perigoso vírus do raciocínio lógico. A arte é feita sempre com as mão os corações e as mentes em poética intimidade. Os caminhos da arte são traçados pelos artistas e não por revistas especializadas ou Bienais. O mundo a nossa volta “parece” apenas que anda muito depressa mas lá dentro da gente o tempo é bem outro. Há muito mais confusão, mistério e alternativas do que nos fazem crer os sacerdotes do Pós-Modernismo e de outros ismos recentes...

 

Estado: Você acha que a arte figurativa refluiu nestas últimas décadas ou apenas ficou pouco visível?

AHA: Se eu morasse em Moscou nos anos 70 esta pergunta poderia ser parafraseada assim: “Você acha que as liberdades democráticas refluiram nas últimas décadas ou apenas ficaram menos visíveis?” No Brasil, onde um arraigado provincianismo infesta uma certa elite intelectual ansiosa em estar ao dia com certas “tendências hegemônicas’, aceitar sem discussão as “verdades” ditadas por instituições e artistas mais em evidência nas Metrópoles- modelos, deixa a impressão de que há leis que dizem o que é certo ou errado. De repente tudo tem que ser abstrato ou conceitual ou figurativo ou construtivo ou expressionista ou sabe-se lá o lque determinou o teórico alemão ou americano ou italiano em voga no momento. Dá a impressão de que se instalam regimes culturais de “franchising” concedidas por Instituições ou críticos de renome internacional. A remuneração dessa “franchising” é a participação neste ou naquele evento, uma migalha no mercado X ou Y, um que outro artigo na revista B ou C. Para alguns a pintura figurativa está invisível, para outros nunca deixou de ser visível. Só vê quem tem os olhos abertos e cabeças sem pré-conceitos.

 

Estado: Como você , um artista que se manteve fiel à figuração dentro de uma constante evolução formal e poética vê a hegemonia abstrata conceitual que ainda domina a cena artística brasileira?

AHA: Embora meu trabalho seja em sua maior parte figurativo, considerável parcela dele é não objetivo.Não me preocupo com coerências estéticas. O pintor americano Barnett Newman dizia que ele estava para a estética assim como os pássaros estavam para a ornitologia...Assino embaixo e entendo que o desejo, a paixão, desordenam quaisquer princípios éticos e teorias estéticas. Quanto à hegemonia abstrata e conceitual que pretensamente “domina” a cena artística brasileira é mais um jogo de cena do que verdade: jogos de de grupos interessados em emular modelos em voga. Insegurança cultural? Acredito que o desafio do artista é criar no meio da confusão de informações e hegemonias dominantes. Nossa realidade é complexa e múltipla demais e precisa de toda a informação e experiência dos que refletem essa diversidade. Obstruir esse processo é equívoco histórico da maior gravidade. Em face de tais grupos dominantes temos que ser sempre esteticamente incorretos e assumir de uma vez por todas as complexidades envolvidas e o risco de sermos diferentes. Criar nossos valores num processo sócio-cultural de individuação junguiana em todas as áreas de nossa vida social, cultural, econômica, política e artística. Trabalhar com mais poesia e independência intelectual, mais próximos da criação e menos envolvidos com os procedimentos burocraticos das “tendências hegemônicas”

 

Estado: Você acha que a insistência no racionalismo e na abstração afastou o diálogo do artista com o público? Rodin atraiu filas inéditas nas demais mostras de arte do país...

AHA: Rodin é um artista que energiza e emociona. Sua exposição foi montada com dignidade e o maior respeito ao público, o que explica seu sucesso. O desejo é a força criadora e excluí-lo da obra de arte é fatal para esta última. Em arte, conceitos racionais, intelectuais, têm vida curta. Artistas conceituais apaixonados como um Joseph Beuys são gigantes que iluminam com a integridade de sua fé ou um Andy Warhol com a integridade de seu cinismo.São artistas únicos, não são “tendências”.

 

Estado: Ainda há possibilidade de invenção e experimentação na arte deste final de século ou chegamos em um beco sem saída? As artes ditas de “vanguarda” faleceram após tentar decretar a morte da pintura?

AHA: Os artistas sempre encontram as saídas dos becos. O homem pinta, esculpe e desenvolve linguagens há vários milênios (20.000, 40.000?) e continuará a fazer isso. Quem sabe as artes visuais estejam procurando um terreno mais firme, um diálogo mais direto com seu público, uma reaproximação poética mais densa com o homem, suas fantasias, sonhos e desejos, através de gestos mais possíveis que o ajudem nesta caminhada sabe-se lá para onde.

 

 

São Paulo, 21 de agosto de 1995