IMAGENS SOB OS SONHOS DE UM POETA

Leila Kiyomura

2003

 

Vontade de, quem sabe um dia, quem sabe em vários dias, pintar um grande painel misturando pedras, flores, céu, verdes, terra, gente, ou pedaços de garfos, facas, pássaros. Barroquizar todo um universo de formas sem precedentes...

                              (Nova York, 13 de outubro de 1974)

 

Quando dedilhou na máquina de escrever este texto, “Quem sabe um dia”, o poeta Antonio Henriqueestava sonhando com o pintor Amaral.... Um dia que chegou 15 anos depois. As palavras explodiram em verdes, pedras...  E o poeta pintou São Paulo: criação, expansão e desenvolvimento, o Painel Bandeirantes, um óleo sobre tela de 4,50 x 16 metros em homenagem à cidade onde nasceu.

São exatamente as imagens do poeta desconhecido que o pintor Antonio Henrique Amaral está buscando nessas primeiras manhãs de 2004. No ateliê recém-reformado, conseguiu ganhar espaço com a ampliação do mezanino. Organizou as telas, gravuras, lembranças. É nessa ordem que ele vai reencontrando algumas idéias. Sobre a mesa de trabalho, dezenas de pastas com uma infinidade de crônicas, poemas, enfim, uma obra inusitada que surpreende até o próprio autor. “Eu sempre gostei de escrever, desde adolescente”, conta Amaral. “Só que escrevia para mim. Agora, resolvi reler essas coisas e fico admirado com as expectativas que tinha do mundo, das pessoas, da arte”.

 

...Investigo o encontro urbano do corpo com o tempo
o gesto da terra buscando o ar
a aproximação manual do fogo e água
a vibração da luz na elaboração gestual das cores
então,
no cruzamento universal
dos invisiveis eixos incessantes.
Nesse sítio e tempo de reunião
Assembléias me dirão
onde estou
e quem nesse momento
sou.

 

O Antonio Henrique de 18 anos é o mesmo Antonio Henrique de 68. Apesar da briga com o tempo, continua o mesmo poeta que impulsiona o pintor. Crítico, sonhador e apaixonado. O pintor vai desdobrando as folhas amarelecidas de papel sulfite. Revelam anotações de viagem. Impressões sobre a vida, a família, os amores. As telas que percorrem o mundo – tem realizado diversas exposições nos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Japão, México, Cuba, Chile,Venezuela,  Bolívia, Uruguai, Macedônia – estão ali esboçados nos poemas que ninguém pôde desfrutar o prazer de ler. Como as suas pinturas, não têm a preocupação com estilos, correntes. Um poeta que se deixa entrever apenas nos títulos de algumas obras: ... depois, a gente acostuma e é como não existisse.. ou De dia tudo fica bem... à noite fica complicado. Paisagens que libertam o pintor e revelam o poeta.

 

Refletirei seriamente sobre a minha pintura e a entidade cultural que eventualmente eu seja e planejarei como eliminar todas estas estruturas passadas, estes quadros pintados, inanimados. E minhas dúvidas e medos ficarão em meio da roda e eu dançarei em volta deles com gente com os mesmos medos e dúvidas...

 

Pinceladas à flor da pele

“Não podia pintar de outro jeito. Eu estava muito apaixonado...” – É assim que Antonio Henrique Amaral justifica Encontro, de 1996, um óleo sobre tela onde a paisagem é delineada pelas silhuetas de um casal. No ângulo de um abraço está o mar azul com o barquinho de velas brancas, montanhas amarelas e o céu avermelhado.

Amaral tem razão. Não podia pintar de outro jeito e fugir à regra de quem está acometido por uma paixão. Deixou-se envolver como um adolescente. E de sua arte madura, experiente e criativa jorraram imagens de corações, que poderiam ser reles se não fluíssem do coração de Amaral. Coração vermelho, azul, amarelo, um poema de Reinaldo Castro que começa assim,...“Esta noite,amor...” . Ou que faz o sujeito perder a cabeça, o cérebro. Essas imagens fazem parte da série Anima & Mania, de 1996. Corações que, como compete às verdadeiras paixões, acabaram sendo partidos, esfaqueados e desarmados pelo cotidiano.

Onze anos antes, Amaral também desenhou corações nas séries Cromo e tempo I, Cromo e tempo II e Cromo e tempo III. Corações rubros, porém sem ocupar dimensões totalizantes e não a ponto de substituir o cérebro. Fazem parte da paisagem. O coração aí está equilibrado com a razão. É a engrenagem de uma cidade e de mecanismos diversos como o corpo de uma mulher.

Corações diferentes, mas igualmente poéticos. Amaral mesmo quando provoca leituras óbvias consegue surpreender. A emoção impulsiona os seus pincéis, flui na escolha das cores. Cria com liberdade, sem a preocupação do juízo da crítica. Há quem diga que ele segue a estética do kitsch, a antropofagia, o hiper-realismo... Amaral não se deixa enquadrar. Sua obra tem múltiplas interpretações, múltiplos olhares. Imagens onde não falta a presença feminina. A sua mulher não tem rosto definido. É um ideal. Os seios generosos sugerindo a continuidade da vida. As silhuetas marcadas pelas curvas. O sonho de um barco a vela e um oceano a se perder.

 

Diálogo com o mundo

Apesar da rotina diária no ateliê – um loft no Butantã projetado, em 1976, por Ruy Ohtake – a arte de Amaral foge dos limites. Está pelo mundo em um diálogo contínuo com a realidade. Protestou contra os generais, a devastação da Amazônia. A consagrada série Bananas, iniciada na década de 1960, foi a arma do artista contra o regime militar. “Bananas para a ditadura... Pintei várias telas. A última, em outubro de 1975, foi a minha manifestação contra a morte de Vladimir Herzog”, explica.

Mesmo longe – morou no Soho, em Nova York, na década de 1970 e meados de 1980 – suas telas registram a preocupação com os problemas brasileiros. Também participou da campanha de prevenção contra a Aids elaborando um cartaz que resultaram, em 1995, na série Torsos. As imagens falavam doaproximar dos corpos.

Mesmo quando tenta se abstrair e mergulhar dentro de si mesmo, Amaral revela um pensamento e uma postura que partilha entre as pessoas. “Arte é como me relaciono com o mundo”, justifica. “É o vínculo entre o subjetivo interior e a realidade que me cerca: as pessoas, as coisas, lugares, afetos, indagações da vida, do que seja isto e do que seja a morte. Tenho a consciência das limitações e do mistério da existência, sem esperança de saber as respostas para as questões fundamentais”.

Essa atitude faz com que a obra desse paulistano, advogado formado na Universidade de São Paulo, saia dos limites da metrópole, do País para se integrar em um continente. Destaca-se como um dos representantes da arte latino-americana.

 

Sem conceitos

“Tudo pelos afetos”. Com essa convicção, Amaral abdicou do ateliê em Nova York para viver e trabalhar em São Paulo. Ficar mais perto da família e dos amigos. Não gosta de pensar no que fez ou poderia ter feito. Tenta seguir sem traçar caminhos. Com leveza e liberdade. No ateliê, está remodelando os espaços para aproveitar a claridade das janelas da fachada. E na arte vem buscando, desde a travessia do milênio, a fusão da luz, da cor. E o mais curioso: dos sentidos.

Antonio Henrique Amaral que durante toda a sua trajetória – expõe desde 1955 – transformou palavras em pinturas e pinturas em movimentos sociais, políticos, ecológicos ou até mesmo em sonhos de amor, agora busca um universo. Sem conceitos,sem  propostas, onde o desenho nasce do descompromisso, como se estivesse ao vento, sob a chuva ou luar. A forma surge no movimento dos gestos, dançando ou caindo ao acaso na compulsão da cor. É o que se vê e o que se sente em Na terra, os corpos de baile (técnica mista s/papel, 2000); Nos amarelos, o perfume das flores ( técnica mista s/ papel, 2000); O princípio (óleo sobre tela, 2002) ou Pequenas garças brancas (técnica mista s/papel, 2000).

Amaral vive um momento de delicadeza. O domínio datécnica naarte é uma brincadeira. Nessa fase, seus desenhos acontecem, como ele próprio argumenta, sem o menor sentido, a não ser o de existir no papel. “Não tem em cima, nem embaixo, nem esquerda, nem direita, nem figura ou fundo, não tem centro... O universo não é mais ou menos assim?”, questiona.

Assim... Um universo que permite voltar no tempo. Descobrir poemas de um Antonio Henrique menino que pode, quem sabe, apontar um caminho que ainda não percorreu ou um quadro que deixou de pintar.