ANTONIO HENRIQUE AMARAL

   Maria Alice Milliet

Maio 2002

 

 

Há dois anos Antonio Henrique mostrava um conjunto de desenhos nesta mesma Galeria. Chamei a exposição de Entreato. Não me equivoquei. Depois do entretenimento ligeiro - verdadeiro divertissement dizia o artista, desenhando pelo prazer de desenhar - a pintura retorna em telas de grandes formatos numa expansão pictórica dos gestos ensaiados no papel.

Esse desenvolvimento faz lembrar outro momento de sua carreira quando, nos anos 80 assumiu pela primeira vez o automatismo do gesto, um procedimento que começou marginal - porque nasceu dos rabiscos e garatujas feitos à margem de agendas e cadernos, sem premeditação nem propósito - e que transposto para a pintura se provou desestabilizador de uma obra solidamente construída. Na época, a crítica, salvo a mais esclarecida como a escrita por Sheila Leirner, ficou reticente. O público resistiu, não reconhecia na irreverência caótica daquela iconoclastia o consagrado “pintor das bananas”. Dessa fase irreverente remanesceram alguns quadros no ateliê, coisa rara em se tratando de uma produção sempre disputada pelos colecionadores. Vinte anos depois, o mercado começa a descobrir qualidades onde antes via apenas um acidente de percurso.

Essa reavaliação vai no sentido inverso da dinâmica do artista que vem fazendo intervenções em quadros que um dia considerou acabados. Ao contrário do que se poderia supor, o que o move não é o desejo de fazer melhor, mas simplesmente a liberdade de agir, atitude energética que impulsiona seu trabalho mais recente. O gesto espontâneo, que outrora irrompeu na superfície polida de sua pintura como instrumento desregulador da forma, da técnica, dos conteúdos de fundo ideológico, deixa agora de ser um impulso transgressor para se afirmar como prática de uma linguagem outra.

 A obra de Amaral vista retrospectivamente revela a oscilação entre duas concepções representacionais distintas. Essa tensão de opostos se realiza em fases alternadas quando afiguração estática e controlada cede à desconfiguração dinâmica, pulsional. Essa situação problemática em si é o que confere espessura contemporânea a sua obra. Numa sociedade pautada pela dissolução de valores em que a coerência deixa de ser pré-requisito de um trabalho "sério", em que o contraditório, o plural, o heterogêneo afloram em todas as manifestações humanas, não há porque esperar uma arte olímpica isenta de conflitos. A administração de antagonismos - essa qualidade combativa - faz parte do trabalho de Amaral.

Nas pinturas atuais não há contenção mas fluxos. A cor é pura sensação. O espaço perde qualquer horizonte. Tudo se passa num campo de forças em expansão ou contração, em turbilhão, em incessante movimento. Os quadros dessa exposição podem ser vistos como fabulação de um universo onírico em constante transformação, cheio de energia e de acontecimentos dramáticos. Mês a mês, o pintor registra essa fantástica aventura. Em Abril/2001, pequenos bastões aglomerados, encadeados ou dispersos sobrenadam a superfície ao sabor de correntes subterrâneas. Em Junho/2001, o magma pulsante feito de ouro líquido toma o centro do quadro deixando entrever o vermelho que aquece suas profundezas e faz relampejar suas bordas.  Em Agosto/2001 há uma chuva de estrelas errantes. Em Setembro/2001 reina a alegria perversa de ver tudo ir pelos ares. O espaço parece varrido por lixo cósmico: detritos, cacos, pedaços de objetos e até mesmo uma flor inacreditavelmente intacta cruzam a tela impulsionados por um sopro destrutivo. Já em 2002/A seqüência, um grande enigma aparece no céu enquanto fagulhas ascedem ao infinito rompendo a gravidade de um planeta imaginário.

Já disse o bastante para sugerir as potencialidades criadoras do espaço onírico. Até para Bachelard, o filósofo que defende o direito de sonhar, chega a hora de por os pés no chão. Ele adverte que "os céus que escalamos são sempre céus inteiramente interiores - desejos, esperanças, orgulhos. Ficamosdemasiadamente espantados com a extraordinária viagem para fazer dela uma ocasião de espetáculo". Ao contrário, eu diria, para o artista desse espanto nasce o espetáculo.